A situação do São Caetano vai muito além da falta de verba ou de bons jogadores. Desde a morte do prefeito Luiz Olinto Tortorello, em dezembro de 2004, a equipe passou a não ser tratada como prioridade pela prefeitura. O atual governante da cidade, José Auricchio Júnior (PTB), no cargo desde 2005, decidiu priorizar outros setores para investimentos. Mas o que causou um grande atrito com os dirigentes do clube, em especial com o presidente Nairo Ferreira de Souza, foi o fato de Auricchio ter decidido administrar os centros esportivos da cidade.
A prefeitura de São Caetano seguiu uma determinação do Tribunal de Contas do Estado (TCE), em 2009, para gerenciar os 16 centros esportivos da cidade até o final deste ano. Dentre eles está o AD São Caetano, em que Nairo tem mandato até o fim de 2012 (o dirigente está no cargo desde 1996). A sede do clube, localizada no bairro Cerâmica, voltará ao controle da prefeitura, que é a dona do terreno - o São Caetano tinha uma concessão para utilizar o local e realizou obras de ampliação das estruturas. Nairo continuará como presidente, mas sem o controle das estruturas.
O presidente do São Caetano afirmou que gostaria de um acordo com a prefeitura para continuar com a sede destinada apenas aos associados - o local agora será aberto aos munícipes. "Existem muitos clubes com um bom número de associados, como o São Caetano [cerca de 4 mil, que pagam R$ 40 de mensalidade]. Espero que os comandantes passem a dar todas as condições para a manutenção da estrutura [a prefeitura já paga a água e a luz do local]. Grande parte do que está lá foi construído pela nossa administração."
Os dirigentes do São Caetano reclamam que Auricchio não dá apoio ao clube. De acordo com eles, a única vez que o prefeito esteve no Anacleto Campanella para acompanhar um jogo foi "com a camisa do Palmeiras" (no Paulistão de 2009). Por meio de nota, a assessoria de imprensa de Auricchio negou o desentendimento com Nairo - o prefeito não quis dar detalhes do relacionamento ou comentar o estado crítico do Anacleto Campanella.
Com o prefeito em silêncio, o secretário de Esportes e Turismo, Mauro Chekin, tentou defender o bom relacionamento entre Prefeitura e clube. "O São Caetano continuará a ter sua sala mesmo com a municipalização. Não acabará nada. O que vai mudar é que todos poderão utilizar a estrutura, sem a necessidade de ser sócio. Falam que o prefeito não gosta de futebol, mas não é bem assim. Ele administra muito bem a cidade e sempre está aberto aos diálogos."
Chekin, porém, não perdeu a chance de fazer críticas à administração de Nairo. "O clube precisa voltar a ter apelos maiores. O São Caetano tem muitos jogadores distribuídos pelo Brasil e não monta um time para subir de novo porque é conveniente. Não vou para a Série C e não tenho a intenção de subir... Compreende? Se a equipe der condições novamente [voltar à Série A do Brasileiro], fica mais fácil para fazer investimentos."
AOS PEDAÇOS. Reportagem esteve no Estádio Anacleto Campanella para acompanhar a partida entre São Caetano e ASA, no último sábado, pela Série B - com heroicos 977 pagantes, boa parte de fãs do clube alagoano. A situação precária do campo é visível logo na entrada. A arquibancada amarela e o prédio destinado para os jornalistas estão interditados. Rachaduras se estendem pelos demais setores e o placar eletrônico não funciona mais. O único setor em ordem é o camarote da prefeitura - tem espaço amplo e até geladeira.
De acordo com Chekin, a prefeitura precisa de R$ 2 milhões para reformar a arquibancada amarela (interditada faz mais de dois anos) e o prédio de imprensa - valor pequeno em comparação com os projetos de estádios que devem ser construídos para a Copa do Mundo de 2014, que giram em torno de R$ 400 milhões. "Temos um projeto em andamento", garantiu o secretário. "Mas não temos condições de investir agora. Esperamos conseguir uma Parceria Público Privada (PPP) para obter o valor. Talvez o próprio São Caetano nos queira ajudar com a reforma".
O presidente do São Caetano, no entanto, descarta uma parceria para resolver o problema. "Só se o São Caetano pudesse explorar o estádio publicitariamente. Já fazemos a manutenção do gramado e pagamos o aluguel para utilizá-lo. Tudo o que precisa ser reformado no local é de obrigação da prefeitura. O São Caetano cumpre com seus objetivos e não pode trocar sequer um parafuso de uma janela, pois a responsabilidade não é nossa". De acordo com a secretaria, o valor do aluguel está em torno de R$ 6 mil, com as demais taxas.
NOVO BARUERI? A mudança de sede do Barueri para Presidente Prudente após uma briga entre os dirigentes e a prefeitura local pegou muita gente de surpresa. Nairo, no entanto, afirma que o São Caetano não seguirá este caminho, apesar dos fortes boatos que correm pela cidade. "A situação de Barueri foi outra. O São Caetano nasceu aqui [há 21 anos] e vai morrer aqui. Muitos boatos pela região falaram que a gente sairia, mas não é isso. Sempre procuramos ser parceiros da prefeitura e vamos seguir nesta linha."
Chekin também ouviu os boatos e afirmou que está preocupado com o futuro. "Só o Nairo pode definir isso. Onde há fumaça há fogo. E acredito que tem algum fogo por baixo dessa brasa. Reformar o estádio é custoso para a prefeitura e a municipalização dos clubes não será alterada. O que o Nairo tem de entender é que o São Caetano não é mais o clubinho dele. O futebol do São Caetano coloca o nome da cidade na mídia, é verdade, mas não temos a temeridade de perder o clube."
DENTRO DE CAMPO. Apesar de todos os problemas, o São Caetano - que já foi vice-campeão da Libertadores (2002) - está em quinto lugar na classificação da Série B, com 18 pontos, e briga pelo retorno à Série A. Nairo afirma que a equipe está empenhada para subir. "É o nosso grande objetivo. Fizemos contratações boas, e temos o Sérgio Guedes como treinador, que faz um ótimo trabalho. Espero que a equipe suba e que a prefeitura volte a nos dar boas condições". A última contratação foi o atacante Christian, ex-Portuguesa, Internacional e Corinthians.
MAIOR DO ABC? Enquanto o São Caetano busca dias melhores, seus dois rivais na região mostraram força nos últimos anos. O Santo André disputou a elite do Brasileirão em 2009, e o São Bernardo conquistou neste ano o acesso à elite do Paulistão. "O São Bernardo tem um apoio forte da prefeitura, e está reformando o seu estádio. O Santo André também tem um bom projeto, só o São Caetano está nessa situação", lamentou Nairo.
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